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A origem do jogo Calamandara (Parte 1)

Atualizado: 28 de fev. de 2023

Essa história começa de dentro para fora. O dentro era uma força que pulsou e transformou o vazio, diluiu a inércia, formou a ideia. O fora, bem... o fora era o papel, lápis e suor.


Pela luz da ideia do tempo, 20 anos tinham se passado em minha existência. Encontrava-me servindo o Corpo de Fuzileiros Navais do Brasil, na cidade de Manaus. Melhor seria dizer, "encontravam-me" ou "ali eu poderia ser encontrado", porque o encontro de mim mesmo nem estava em sua fase embrionária.


Eu era um rapaz derrubando certezas, descobrindo inverdades e vivenciando as coisas como um criança congelada em sua ingenuidade e dividida entre a frustração com meu trabalho e os fragmentos de mundos imaginários e adormecidos.


Mas essa história também começa de fora pra dentro. E ao dizer isso, quero deixar claro que não pretendi enganar o leitor no início desse texto. Pelo menos não o fiz por maldade, mas por espontaneidade: a espontaneidade de revelar a mim mesmo, do fundo das minhas lembranças, o que estou a escrever. Falo isso por existir um "fora" ocultado antes do "dentro", e esse fora aconteceu em um dia tedioso de minha rotina no quartel. Um dia em que um colega trouxe um tabuleiro de xadrez para jogar no tempo de descanso.


Eu já conhecia xadrez. Até joguei algumas vezes, mesmo com meu raso conhecimento sobre suas regras. Mas naquele dia, ao observar esse colega debruçado naquele jogo, movimentando aquelas famosas peças enquanto outros ali se enturmavam, decidindo quem começaria a primeira disputa, uma combustão aconteceu em minha mente, de múltiplas fontes que são difíceis de discernir, mas ainda possíveis de citar: tédio, tristeza e hiperatividade. Assim estavam postos os ingredientes que me fizeram aguardar ansiosamente o fim daquele expediente para poder chegar em casa e começar a esboçar a ideia de um jogo de tabuleiro. Um jogo que fizesse sentido em minha mente e que a arrebatasse dos meses que ainda estavam por vir e que teria de passar como um fuzileiro, antes de minha dispensa sair e assim ir embora.


Saiba, leitor, eu não tenho um passado íntimo com jogos de tabuleiro, a não ser alguns poucos que joguei na minha adolescência. Eu não sabia muito bem para onde ir, mas eu tinha uma ideia que precisava nascer, ser empurrada ladeira abaixo, seja como fosse.


Trabalhei por dias, obcecado pela ideia de criar um jogo empolgante, original, verdadeiro como a minha angústia. Entre rabiscos e garranchos escritos numa folha qualquer, surgiam as primeiras regras, as primeiras mecânicas e os moldes do que veria a ser este sonhado jogo chamado Couraça.


Couraça? não é Calamandara?


Aguarde, meu leitor ou leitora. A analogia do "fora" ainda não terminou. Tenho um último para lhe mostrar. Prometo que será o último. Este veio de meu saudoso pai, que em uma de nossas conversas, e isso bem antes de minha partida para Manaus, me contou sobre um mito, uma lenda urbana de sua terra natal, Ubajara. Irei dedicar um outro post para contar melhor essa história, mas em resumo ele dizia haver nesse lugar bucólico uma colina, e no topo dessa colina havia uma esfera, que parada parecia ser a guardiã daquela paisagem, nitidamente reconhecida também pela figura de uma palmeira que girava e girava suas folhas, como se tivesse vida própria, ao lado desse pico. Essa esfera, revestida de um couro desgastado, era do tamanho de um homem adulto, e dizia-se que para aquele que se aproximasse muito dela, visando suprimir sua curiosidade, teria um destino fatal.


Bem, essa história ficou na minha cabeça por um bom tempo, e apesar de ter pouca experiência com jogos de tabuleiro modernos, eu sabia que seria muito interessante que o meu tivesse algum tema! Você já pode deduzir o tema que me fisgou, e baseado nessa antiga lenda contada por meu pai, continuei desenvolvendo o jogo e o batizei de Couraça. Nessa versão do jogo, até existia uma esfera que descia por uma rampa até chegar no peão do jogador, trazendo a este sua derrota.


Mas e então? Como isso mudou?


Veja, a ideia de tempo é bem estranha e as intenções humanas mais ainda. No próximo post sobre essa história irei contar como o jogo daquele inconstante menino em busca de um caminho em sua vida passou de Couraça para Abismo dos Símbolos, depois Jornada do Símbolos e finalmente...Calamandara.


Até breve.

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